
Conteúdo integral originalmente publicado por Reginaldo Reis no LinkedIn.
Quando satélites, drones e inteligência artificial passam a produzir provas
"Durante séculos, a fiscalização ambiental dependia exclusivamente da presença humana em campo. Hoje, antes mesmo que um fiscal chegue ao local, um satélite já pode ter registrado a infração, um algoritmo pode tê-la identificado e um drone pode documentá-la com precisão centimétrica."
Durante grande parte da história da fiscalização ambiental, localizar uma infração representava um enorme desafio.
Imagine um país com mais de 8,5 milhões de quilômetros quadrados, aproximadamente 60% de sua cobertura vegetal original ainda preservada, milhares de quilômetros de rios navegáveis e extensas áreas de difícil acesso.
Fiscalizar esse território utilizando apenas equipes em campo sempre foi praticamente impossível.
Essa limitação permitia que inúmeros crimes ambientais permanecessem invisíveis durante meses ou até anos.
Hoje essa realidade mudou completamente.
A transformação digital também chegou ao Direito Ambiental.
E talvez nenhum outro ramo jurídico tenha sido tão impactado pelas geotecnologias quanto a proteção ambiental.
A revolução começou no espaço
Poucas pessoas sabem, mas grande parte da fiscalização ambiental brasileira começa centenas de quilômetros acima da superfície terrestre.
Os satélites tornaram-se os principais "olhos" da proteção ambiental.
No Brasil, essa revolução foi liderada pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), referência mundial no monitoramento por sensoriamento remoto.
Dois sistemas merecem destaque.
PRODES
Criado para monitorar o desmatamento da Amazônia Legal, o PRODES calcula anualmente a taxa oficial de desmatamento.
Esses dados subsidiam políticas públicas, pesquisas científicas e compromissos internacionais assumidos pelo Brasil.
Mais do que números, o PRODES tornou-se uma ferramenta estratégica para avaliar a efetividade das políticas ambientais.
DETER
Enquanto o PRODES produz estatísticas consolidadas, o DETER possui outra finalidade.
Seu objetivo é emitir alertas praticamente em tempo real.
Sempre que uma nova área desmatada é identificada, o sistema gera informações que orientam operações do IBAMA, ICMBio, Polícia Federal e demais órgãos fiscalizadores.
Na prática, isso reduziu drasticamente o tempo entre a ocorrência do dano e o início das ações de fiscalização.
O infrator deixou de contar com meses de vantagem.
Hoje, em muitos casos, essa vantagem é de apenas alguns dias.
O drone transformou a perícia ambiental
Se os satélites revolucionaram o monitoramento regional, os drones transformaram completamente a produção de provas.
Como profissional que atua diariamente com drones aplicados à engenharia e ao meio ambiente, posso afirmar que eles representam uma das maiores evoluções da fiscalização ambiental nas últimas décadas.
Um levantamento realizado com drone permite produzir:
- ortomosaicos de alta resolução;
- modelos digitais do terreno;
- modelos digitais de superfície;
- curvas de nível;
- cálculo de volumes;
- identificação de Áreas de Preservação Permanente;
- delimitação precisa de áreas degradadas;
- acompanhamento da regeneração da vegetação;
- documentação fotográfica georreferenciada.
Tudo isso com precisão centimétrica.
Mais do que produzir belas imagens, essas informações passam a integrar laudos periciais, estudos ambientais e processos judiciais.
Hoje, um drone pode demonstrar com elevado grau de precisão a extensão de um desmatamento, a evolução de uma erosão, o avanço de uma mineração irregular ou a ocupação de uma área protegida.
O LiDAR mudou a forma de enxergar a floresta
Entre as tecnologias mais impressionantes atualmente disponíveis está o LiDAR (Light Detection and Ranging).
Enquanto câmeras convencionais registram apenas a superfície visível da vegetação, sensores LiDAR conseguem atravessar parcialmente o dossel florestal.
Isso permite gerar modelos tridimensionais extremamente detalhados.
Na prática, torna-se possível conhecer:
- relevo sob a vegetação;
- altura das árvores;
- estrutura da floresta;
- volumes de biomassa;
- alterações topográficas;
- movimentações de solo.
Essas informações são fundamentais em perícias relacionadas a mineração, obras lineares, recuperação ambiental e fiscalização de grandes empreendimentos.
Inteligência Artificial
A próxima revolução já começou.
Até poucos anos atrás, especialistas precisavam interpretar manualmente milhares de imagens de satélite.
Hoje algoritmos de Inteligência Artificial conseguem identificar automaticamente:
- novos desmatamentos;
- abertura de estradas;
- queimadas;
- mineração ilegal;
- alterações em cursos d'água;
- mudanças na cobertura vegetal.
Além disso, modelos de aprendizado de máquina conseguem prever áreas de maior risco de desmatamento, direcionando operações de fiscalização de forma muito mais eficiente.
O fiscal deixa de atuar apenas de forma reativa.
Passa também a trabalhar preventivamente.
Geoprocessamento: quando diferentes informações conversam entre si
Nenhuma dessas tecnologias trabalha isoladamente.
O verdadeiro poder surge quando elas são integradas em Sistemas de Informações Geográficas (SIG).
Em um único ambiente é possível combinar:
- imagens de satélite;
- levantamentos com drone;
- cadastro ambiental rural;
- hidrografia;
- unidades de conservação;
- terras indígenas;
- propriedades rurais;
- modelos digitais do terreno;
- dados climáticos;
- informações fundiárias.
Essa integração produz uma visão muito mais completa da realidade ambiental.
Não se trata apenas de localizar um dano.
Trata-se de compreender seu contexto.
A tecnologia não substitui o conhecimento técnico
Existe, entretanto, um equívoco cada vez mais comum.
Muitos acreditam que drones, satélites e inteligência artificial "fazem o trabalho sozinhos".
Não fazem.
A tecnologia produz dados.
Quem produz conhecimento continua sendo o profissional.
Uma ortofoto excelente pode ser completamente mal interpretada.
Um modelo digital impecável pode levar a conclusões equivocadas se analisado por quem desconhece geomorfologia, hidrologia, legislação ambiental ou geoprocessamento.
A tecnologia potencializa a capacidade humana.
Jamais substitui o conhecimento técnico.
Reflexão do autor
Ao longo da minha atuação em levantamentos topográficos, georreferenciamento, estudos ambientais e regularização de aeródromos, aprendi que a tecnologia só produz bons resultados quando está a serviço de uma metodologia consistente.
Um drone, por si só, não evita um crime ambiental.
Mas um levantamento técnico bem planejado pode identificar riscos antes da implantação de um empreendimento, orientar decisões mais seguras e fornecer provas robustas caso uma infração venha a ocorrer.
Essa é a verdadeira contribuição das geotecnologias.
Elas aproximam a prevenção da realidade.
O futuro da responsabilização ambiental
Nos próximos anos veremos uma integração cada vez maior entre:
- Inteligência Artificial;
- monitoramento contínuo por satélites;
- sensores IoT;
- drones autônomos;
- blockchain aplicado à rastreabilidade ambiental;
- análise preditiva de riscos;
- fiscalização remota.
Isso permitirá que a atuação estatal seja cada vez mais preventiva.
O foco deixará de ser apenas descobrir quem degradou.
Passará a ser impedir que a degradação aconteça.
E essa talvez seja a maior evolução do Direito Ambiental moderno.
Conclusão do capítulo
A tecnologia não substituiu a legislação.
Também não substituiu o trabalho dos órgãos ambientais.
Ela tornou ambos mais eficientes.
Hoje existe muito menos espaço para alegações de desconhecimento ou ausência de provas.
O desafio deixou de ser localizar o dano.
O verdadeiro desafio passou a ser transformar toda essa informação em decisões rápidas, investigações eficazes e responsabilizações justas.
Porque tecnologia sem governança produz apenas dados.
Tecnologia aliada ao Direito produz proteção ambiental.
Minha proposta para o próximo capítulo (o mais importante do artigo)
Agora entraremos no capítulo que considero o ápice deste trabalho.
Não será apenas uma conclusão.
Será uma análise crítica profunda intitulada:
"Por que ainda fracassamos em prevenir grandes crimes ambientais?"
Nesse capítulo vamos discutir, de forma equilibrada e fundamentada:
- Por que a legislação, embora moderna, nem sempre produz os resultados esperados.
- A morosidade das investigações e dos processos judiciais.
- A importância da educação ambiental e da formação técnica.
- O fortalecimento dos órgãos de fiscalização.
- O papel do compliance ambiental nas empresas.
- A necessidade de integrar desenvolvimento econômico e proteção ambiental.
- E encerraremos com uma reflexão forte e memorável, capaz de fazer o leitor terminar o artigo convencido de que prevenir é muito mais eficaz do que punir.
Precisa aplicar este conhecimento ao seu projeto?
Converse com a BR Consultoria sobre estudos, regularização e soluções ambientais ou aeronáuticas.
Falar com um especialista