← Voltar para o blogIdentificação de Perigos no SGSO: o ponto onde a segurança realmente começa

Conteúdo integral originalmente publicado por Reginaldo Reis no LinkedIn.

No contexto do Sistema de Gerenciamento da Segurança Operacional (SGSO), a identificação de perigos não é apenas uma etapa do processo — é o alicerce sobre o qual toda a gestão de riscos é construída. Quando mal executada, compromete análises, decisões e, em última instância, a própria segurança operacional.

De forma objetiva, perigo é qualquer condição, objeto ou atividade com potencial de causar dano, enquanto a consequência é apenas o resultado desse perigo . Essa distinção, embora simples, ainda é um dos erros mais recorrentes na prática operacional.

O erro mais comum: confundir perigo com consequência

Uma das principais fragilidades observadas em operadores de aeródromos e na aviação geral é a descrição equivocada do perigo.

  • “Incursão em pista” não é um perigo — é uma consequência
  • O perigo real pode ser: Sinalização deficiente Procedimentos inadequados Falha de comunicação

Essa confusão:

  • Oculta a origem do risco
  • Limita a identificação de outras consequências relevantes
  • Compromete a eficácia das barreiras de segurança

👉 Em ambientes complexos como aeródromos com operação mista (regular + aviação geral), esse erro pode mascarar riscos sistêmicos importantes.

Onde procurar perigos: uma visão prática aplicada

A identificação de perigos exige uma abordagem estruturada e multidimensional. O Anexo 19 da Organização de Aviação Civil Internacional (OACI), promulgado em 2013, que trata do Gerenciamento da Segurança Operacional (Safety Management - SMS), destaca fatores essenciais que devem ser considerados — e aqui está a leitura aplicada para o dia a dia operacional:

1. Ambiente de aeródromo

  • Condições de pista (FOD, atrito, drenagem)
  • Obras e intervenções (equipamentos, interdições parciais)
  • Sinalização e iluminação

➡ Exemplo prático: Uma obra em taxiway não é o risco — o perigo está na presença de equipamentos e alteração da rotina operacional, que pode gerar colisões ou desvios indevidos.

2. Fauna

  • Presença de aves ou animais na área de movimento
  • Atrativos no entorno (lixões, corpos d’água)
  • Falhas no gerenciamento de fauna

➡ Insight importante: A fauna é um perigo natural, mas frequentemente agravado por fatores organizacionais (gestão inadequada do sítio aeroportuário).

3. Aviação Geral

  • Variabilidade de treinamento e proficiência
  • Operações não padronizadas
  • Comunicação deficiente (especialmente em aeródromos não controlados)

➡ Ponto crítico: Na aviação geral, muitos perigos são latentes e comportamentais, não estruturais.

O modelo prático: o “ABC do perigo”

Uma das ferramentas mais poderosas (e subutilizadas) do SGSO é a estrutura de análise apresentada no material:

  • A – Tipo de operação
  • B – Perigo (formulação correta)
  • C – Consequências associadas

Exemplo aplicado (aeródromo com fauna):

  • A: Operação de pouso
  • B: Presença de aves na zona de toque
  • C: Colisão com ave, ingestão de motor, rejeição de pouso

👉 Esse modelo força clareza e evita erros conceituais.

Além dos acidentes: onde realmente estão os perigos

Um dos conceitos mais negligenciados no SGSO é o foco excessivo em eventos graves.

O material é direto: limitar a identificação de perigos a acidentes ou incidentes graves torna o sistema ineficaz

Na prática:

  • Acidentes são raros
  • Incidentes são menos raros
  • Condições latentes são abundantes

➡ É aqui que o SGSO maduro atua.

Exemplos em aeródromos:

  • Rotina informal de táxi fora de padrão
  • Comunicação ambígua entre pilotos
  • Falhas recorrentes ignoradas por “normalização do desvio”

3 insights que demonstram maturidade em SGSO

Se você quiser identificar rapidamente se uma organização realmente domina o SGSO, observe estes três pontos:

1. Clareza conceitual na descrição de perigos

  • Perigos são descritos como condições, nunca como eventos
  • Existe padronização na linguagem

👉 Isso separa operações reativas de operações profissionais.

2. Capacidade de identificar perigos latentes

  • O foco não está apenas no que “deu errado”
  • Há atuação preventiva e preditiva

👉 Organizações maduras trabalham antes do incidente.

3. Integração entre áreas operacionais

  • Aeródromo, fauna e operadores (aviação geral) compartilham informações
  • Há múltiplas fontes de dados (relatos, auditorias, observação direta)

👉 Segurança não é um departamento — é um sistema.

Conclusão

A identificação de perigos no SGSO não é um exercício teórico — é uma competência operacional crítica.

Em ambientes como aeródromos, onde convivem infraestrutura, fatores ambientais (fauna) e alta variabilidade operacional (aviação geral), a qualidade dessa identificação define o nível real de segurança.

Se o perigo for mal definido, todo o restante do sistema será apenas uma formalidade bem documentada — e perigosamente ineficaz

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