
Conteúdo integral originalmente publicado por Reginaldo Reis no LinkedIn.
A segurança operacional na aviação é construída camada por camada. Cada procedimento, cada estudo, cada mapa produzido representa mais uma barreira entre uma operação rotineira e um evento indesejado. Nesse contexto, dois instrumentos cartográficos desenvolvidos para o aeródromo André Antônio Maggi (SWBG), em Pontes e Lacerda - MT, ilustram com precisão como a gestão ambiental e a segurança de voo são indissociáveis.
O Problema: avifauna e aviação não combinam
A colisão de aeronaves com aves — conhecida como bird strike — é um dos principais fatores de risco na aviação mundial. Dados da ANAC e do CENIPA apontam que a maioria dos eventos ocorre nas fases de decolagem, subida inicial, aproximação e pouso, justamente quando a aeronave opera em baixas altitudes e velocidades, com menor margem para manobras evasivas.
O impacto vai além do dano material à aeronave. Em situações críticas, uma colisão com fauna pode comprometer motores, superfícies de controle e até o para-brisa da cabine, colocando em risco tripulantes e passageiros. Prevenir esse risco exige, antes de tudo, conhecer o ambiente ao redor do aeródromo.
A Solução: mapear para gerenciar
Foi com essa premissa que foram elaborados dois mapas integrados dentro do componente ambiental do estudo aeroportuário de Pontes e Lacerda:
🗺️ 1. Mapa da Área de Segurança Aeroportuária (ASA — Raio de 20 km)
O primeiro mapa apresenta, sobre imagem de satélite de alta resolução, o levantamento detalhado de todos os empreendimentos, atividades e elementos naturais e artificiais com potencial atrativo de fauna dentro da Área de Segurança Aeroportuária.
Entre os elementos mapeados estão:
- Pecuária extensiva e confinamentos
- Atividades agrícolas e aquicultura
- Frigoríficos e armazéns/silos
- Corpos d'água lênticos e rede hidrográfica
- Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs)
- Aterro sanitário — elemento de alto risco por atrair aves de grande porte como urubus
- Extração mineral
Cada um desses pontos representa uma fonte potencial de atração de fauna para o espaço aéreo do aeródromo. O mapeamento sistemático desses elementos é o primeiro passo para entender onde, por que e quais espécies podem estar presentes nas proximidades das operações aéreas.
🌡️ 2. Mapa de Calor — Probabilidade de Incidência de Avifauna
Com base no inventário de elementos atrativos levantados no mapa anterior, foi gerado um mapa de calor que espacializa a probabilidade de incidência de avifauna dentro da ASA, utilizando como referência o aeródromo SWBG.
O resultado é visualmente eloquente: a região imediatamente ao redor do aeródromo e seu setor leste — onde se concentram os elementos atrativos mais expressivos, incluindo a área urbana de Pontes e Lacerda — apresenta os maiores índices de probabilidade, representados pela coloração vermelha intensa no mapa. O gradiente diminui progressivamente em direção ao setor norte e noroeste da ASA.
O que esses mapas revelam para as operações aéreas
A leitura integrada dos dois produtos cartográficos permite conclusões diretas e aplicáveis à segurança operacional:
➤ O circuito de tráfego pelo setor leste e as operações de pouso e decolagem pela cabeceira 01 exigem atenção redobrada, por estarem inseridos na zona de maior probabilidade de incidência.
➤ O aterro sanitário identificado a sudeste da ASA representa um ponto crítico isolado, com potencial de atração de aves de grande porte que podem interceptar as trajetórias de voo.
➤ A densa rede hidrográfica e os corpos d'água mapeados constituem rotas de deslocamento natural de aves aquáticas e migratórias, sobrepostas às aproximações do aeródromo.
➤ Rotas que privilegiem o setor norte e noroeste, quando as condições operacionais permitirem, representam uma estratégia de mitigação baseada em evidências cartográficas.
Por que isso importa além do aeródromo
O método aplicado em Pontes e Lacerda é replicável e escalável. Todo aeródromo brasileiro — especialmente os inseridos em contextos rurais e de fronteira agrícola — está cercado por atividades com potencial atrativo de fauna. Ignorar essa realidade é assumir um risco desnecessário.
A RBAC-E nº 58 da ANAC, que trata do Gerenciamento do Risco da Fauna nos Aeródromos Civis Brasileiros, estabelece diretrizes claras para a identificação, avaliação e mitigação desse risco. O desenvolvimento de mapas como os apresentados aqui representa exatamente o tipo de subsídio técnico e documental que instrumentaliza o gestor aeroportuário, o operador e o próprio piloto na tomada de decisões mais seguras.
Considerações Finais
Mapear não é burocracia. Mapear é inteligência aplicada à prevenção.
Quando integramos dados ambientais — uso do solo, hidrografia, atividades produtivas — a um produto cartográfico orientado à segurança de voo, transformamos informação dispersa em conhecimento acionável. Pilotos passam a compreender os riscos do ambiente em que operam. Gestores ganham base técnica para implementar medidas de controle. E o sistema de aviação como um todo se torna um pouco mais robusto.
A segurança de voo começa muito antes do motor ligar. Começa no levantamento de campo, na análise dos dados e — como vimos aqui — em um mapa bem feito.
📍 Estudo desenvolvido para o aeródromo André Antônio Maggi (SWBG) — Pontes e Lacerda, MT 🗓️ Elaboração: maio de 2026 ✏️ Elaboração cartográfica: Bruna de Oliveira Costa | Revisão: BR CONSULTORIA AMBIENTAL E AERONÁUTICA
💬 E você, já considerou o risco de avifauna nas operações do seu aeródromo? Compartilhe sua experiência nos comentários.
#SegurançaDeVoo #Aviação #GestãoAmbiental #BirdStrike #Aeródromos #ANAC #SegurançaOperacional #Cartografia #GestaodeRiscos
Precisa aplicar este conhecimento ao seu projeto?
Converse com a BR Consultoria sobre estudos, regularização e soluções ambientais ou aeronáuticas.
Falar com um especialista